domingo, 20 de dezembro de 2009

Meu avô e os sapos

Eu adoro os sapos e muita gente me olha com estranheza quando me ouve falar isso. Muita gente tem asco desse bichinho tão simpático e inocente. Gosto dos sapos graças ao meu avô.

Eu era pequeno e meu avô era uma figura muito importante pra mim. Sírio, um nariz enorme e orelhas enormes e um sorriso cativante sempre estampado no rosto, e nunca na vida reclamou de nenhuma situação ou percalço. Meu avô Antônio era figura rara, sábia. Veio da Síria aos 9 anos de idade e aprendeu a falar o português nos porões do navio. Viria a se casar com minha avó Alice, imigrande de italianos, e sabe-se lá como o destino dos dois se cruzou.

Meu avô se dizia ateu, mas um dia, questionado por minha mãe se realmente não acreditava em deus, respondeu: "Minha filha, se deus existe, para mim, ele está em tudo o que é bonito: os animais, as árvores, as plantas..." e a impressão que tenho é que meu avô era incapaz de se concentrar em algo ruim. Até as maiores dificuldades que passou na vida não lhe tiraram os sono. A vida estava acima dos problemas. Muito pouca gente sabe fazer isto! E era ateu. Tenho uma tia que diz que ele era panteísta, mas eu vejo que o aparente panteísmo era só uma forma de conjecturar os questionamentos que lhe faziam. Nunca teve religião, sempre foi incrível... Talvez exatamente por isto.

Viveu 94 anos e, mesmo na cama, dependendo de cuidados de outros, mantinha sempre uma fantástica ludicez e um sorriso aberto.

Voltando aos sapos, pois meu avô renderia um livro, um dia cheguei na casa dele (eu tinha, então, uns 9 anos de idade) e fui direto ao quintal pra cumprimentá-lo. Eu adorava ajudá-lo na horta, uma bela e enorme horta, que ele tinha no quintal, cuidadosamente separada em canteiros. Cheguei, cumprimeitei-o e, sabendo que eu gostava de romã, ele já foi me dizendo, com seu sotaque particular que mais parecia de paulistano que de estrangeiro, "Pega romã, tem romã madura" e fui eu pegar a romã, enquanto ele aguava as plantas. Quando cheguei perto do pé de romã parei e fiquei estático com medo de um sapo que, para meu "fator de escala" de então, hoje pareceria ter uns 30 cm. Meu avô, percebendo aquilo, deixou a mangueira no chão, se aproximou de mim, se agachou e me perguntou: "Você está com medo do sapo?" e eu respondi que sim. Daí ele me perguntou: "Você não gosta de me ajudar com a horta?", e eu também respondi que sim. Daí ele disse, finalmente: "O sapo também nos ajuda aqui na horta. Ele come os insetos que podem fazer mal às plantas, ele revolve a terra e, veja bem, o sapo não é feio, nem perigoso, nem sujo. O sapo é limpo, não faz mal a ninguém e se nós o achamos feio é porque não estamos habituados a olhar pra ele". Dito isto, ele pegou o sapo com as mãos, mas não me impos nada, apenas continuou falar de valores de julgamento que tanto fazemos, e fez isto com uma naturalidade e num liguajar tão especial que eu, aos 9 anos, compreendi tudo o que ele estava a me dizer. Talvez sem ter a dimensão da enormidade do que ele falava, ele me ensinou ali, naquele dia, naquele momento, que as aparências, o feio e o bonito, o diferente e o usual, eram coisas sem importância real, mas apenas relativa. Existiam, mas não eram importantes de fato. O sapo já tinha deixado de ser feio, perigoso e ameaçador para mim, e este diálogo terminou comigo acariciando as "costas" do sapo, como ele mesmo tinha feito. Ele colocou o sapo de volta no chão, no mesmo lugar, e lá o deixou, voltando a aguar suas plantas e me deixando com a "lição" sem nada me cobrar. Eu, naturalmente, me aproximei do pé de romã e peguei a romã madura, já rachada, linda, que me esperava e que tinha sido reservada pra mim. Os sapos, desde então, além de me fazer recordar meu avô, me fazem recordar de tudo o que ele me ensinou ali. Foi um tratado ao não-preconceito, o que ele fez de forma tão naturalmente sábia, e acho que aprendi. É hipocrisia alguém dizer que não tem preconceitos. Todos temos, mas aprender a enxergá-los e a lidar com eles, colocá-los de lado, é o fundamental.

Hoje em dia adoro os sapos. Quando me aparece algum pelo quintal, olho e admiro da mesma forma que faço com um pássaro, um beija-flor. Deixo-o no quintal, e se aparecerem mais, tanto melhor. Tive uma infância de quintal, brincava subindo em árvores, telhados, muros, escavando na terra e sempre havia sapos nas épocas de chuva. Era sempre divertida a descoberta da presença de um sapo por lá. Uma companhia a mais, com seu espaço reservado. Os sapos têm lá sua beleza, mesmo, e eu adoro romã até hoje.

5 comentários:

  1. Só agora entendi
    Nada de urso....
    Não é isso que busco...
    Alguém viu meu sapo por aí???.....rsrsrsss.....
    Beijos p vc Ivan..
    E parabéns pelo Blog...vc realmente é a sua cara!
    Aline.

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  2. ivan! a gente precisa pensar na inauguração da rede, ainda mais que sobraram umas 4 garrafas de vinho, acredita? claro que será a inauguração, digamos, social da rede, a abertura aos habitués. rs. MINHA REDE É LINDA!

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  3. "A gente precisa pensar na inauguração da rede?" não sou eu, né? (rs...) E não entendi o que a rede tem a ver com o texto sobre meu avô e os sapos. Ah... já sei... tanto os sapos quanto as redes, assim utilizadas, pulam. Acertei? (rs...) INAUGURE LOGO, criatura!

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  4. Ivan, que linda essa história do seu avô! Que privilégio tu teves ao conviver com ele.
    Eu gosto de sapos também, e de lagartos e lagartixas...

    beijos

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  5. Mexendo aqui em seus guardados, reli esse texto e lembrei da noite boa em que essa lição me foi contada... assuntos tantos, falas tontas... a lição do não-preconceito é sempre inesquecível...

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